Beirinha do Rio Doce

Gostaria de lhes indicar hoje, um texto do meu pai. Que pelo que entendi. agora é uma espécie de cara famoso no Google Groups GenteMinha, se este texto fizer sucesso vou colocar mais. Gostaria de lembrar que daqui a alguns dias poderão selecionar qual categoria desejam ler. Um grande beijo pra você paizão!

Meu Cumpade Joaquim de Araújo Ramos,
(Oia a “revolution” que começamos: as muié já tão entregando as datas de nascimento também. Sabe eu gosto de muié assim, sem remendação, intirinha, com cada marca da vida. E tomando cerveja e brindando a vida, que passa sem dó nem piedade. Num dianta represá qui ela rompi! Muié que só bebe água é aguada ).
– Cumpade Ramos, vamo pruseá intão, tem Gentenossa aí que gosta de dizê que esse mundão é uma ervilha, e num é qui eu concordi! Pois veja ocê: Cê me diz que é do Resplendor, berinha do RiDoce e eu sou do “Vai Volta” de Tarumirim, logo ali bem pertim, oia no mapa procêvê! E minha muié, Ró, é da Figueira do Rio Doce, que nome mais lindo, se ainda tivesse esse nome eu juro que ia morar lá (pobre do Waldirzim, chegou lá já era Governador Valadares, nome horroroso, devia ser proibido trocar nome lindo de cidade prá homenagear gente, que depois ninguém nem sabe quem foi. Qdo. foi um cara legal, não político, e o nome da cidade já era feio, aí vale!). – Mas continuando a nossa prosa: “Berinha do RiDoce”, cê num vai acreditá: eu morava lá na Terrinha (que tb tem berinha no RiDoce) e o meu sogro aqui em Ipatinga (que quer dizer: “pouso de água limpa”, também na berinha do RiDoce); um dia ele foi lá, me chamô num canto e falô, “”Jáson, descobri, em Santana do Paraíso (20Km de Ipatinga), um pedacinho de “Barranco na berinha do RiDoce”, tá a venda, eu só tenho metade do dinheiro, vim cá prá sabê se cê tem a ôtra metade, se me empresta ou se qué cê sócio””. – Sou sócio!, fechei na horinha. O dim-dim tava na poupança, a primeira ‘muitos planos para o dinheiro pouco que multiplicaria em fortuna’. Fiz o cheque. Falou: ” vai lá vê!”. – Vou no próximo fim de semana. Fui. Imaginei uma “chácara” do tamanho de um campo de futebol. O “terreno” ficava espremido entre os trilho da EFVM e o RiDoce. Tamanho de uma quadra (CTC), só que retangular. Inclinada, um “plano inclinado”, um barranco, enfim. “Tá e quá” o “desaterro” da Antõnio Salim (qui parece ocê num cunheceu, né?). – Pois é, prejuizo? Qual o quê! “mais vale um gosto que tostão no bolso”, aquele barranco foi e é, cenário de uma maravilha (pregunte aí pro nosso JorgePi, que teve o prazer de botar os pés lá e viu uma bela traíra ser pescada pelo amigo Zé Salvadô, que tava só de passagem, vindo de Valadares. Chegou, pegou a vara, levantou uma pedra, pegou uma lesma, fez isca inteira e buscou a trairona. Me entregou e disse: “Faiz aí pros seus amigos” e foi embora. Fizemos. Delícia. JorgePi e Tia Tê lamberam os beiços. É mentira Fiote?, Meu Cumpade JorgePi). – Faz 25 anos que aquele barranco com um humilde barraco tem sido o “point” da família e dos parentes e dos amigos e dos amigos dos amigos. Muito riso, muita alegria, muita história. Muito peixe: Traíra e Pacumã. (semana passada meu sobrinho Daniel,16a, veio me presentear com uma bela Traíra, pescada lá). – Meu sogro era o pescador mais conhecido de Ipatinga, não só por ser pescador, mas também por ser “pioneiro” da cidade, veio de Gov. Valadares quando a USIMINAS soltou a primeira fumaça da primeira fornada de aço. Além disso era um sujeito carismático, brincalhão, gozador e cruzeirense. – Quando o Cruzeiro ganhava do Atlético ele não perdoava os amigos sofredores: ligava para cada um à meia noite e “machucava”. Tinha um “turco” (libanês) de nome Aldifax, gerente da Casas Franklin, q era em frente ao consultório do Itamar(Antônio), meu sogro. Aldifax era atleticano, coitado como sofreu! Agora estão os dois (e mais a turma toda deles que era uma manada das grandes e mais o meu cunhado Rominho, que subiu 5 anos depois do pai, dele) lá no “andar de Cima”, com certeza, continuando a farra do “andar de baixo”, com os 5X0 no Galo. – Mas, voltando prá prosa: o barranco da Berinha do RiDoce fica no finalzinho de uma curva do rio, logo, olhando para a direção da “cabeceira” vê-se uma grande porção do rio formando um lago, lá no meio uma ilhota, onde meu sogro chegou a ter uma manada de cabritos e cabras e um bode fedorento, que nos dava corridas e nos fazia gargalhar à larga. – Os filhos foram nascendo e frequentando aquele pedacinho do céu, desde os primeiros dias, alguns deram os seus primeiros passos ali, a primeira corrida, viu o primeiro pássaro, a galinha, o ovo no ninho, o ninho com filhote, o primeiro escorpião, a aranha, a cobra, a caixa de marimbondo, aprenderam a trepar em árvore e comer a fruta lá em cima. – Brincavam na terra, no barro, na gangorra, na “casa” de madeira, que eu fiz, sobre o pé de Cajámanga, no RiDoce e na “linha de ferro”. – Às vezes um comboio, de até 200 vagões, tinha que parar e as locomotivas (duas, para aguentar o peso) ficavam bem em frente ao portão, quando o maquinista era boa praça convidava a gente a subir e conhecer a “monstra”, era emocionante. – Outras vezes vinham as máquinas de manutenção, algumas parecem coisa de filmes de ficção, só vendo para crer: tem máquina para limar os trilhos parecida com uma aranha gigante (na ponta de cada “pata” há um conjunto de limas em forma de rolimã, cada um com uma inclinação. O conjunto abraça o trilho (que não é quadradinho, como se pensa) e vão girando e produzindo faíscas, como no esmeril das oficinas, à noite isso é um grande espetáculo, pois são muitos conjuntos trabalhando ao mesmo tempo). – Há pouco tempo, 02 anos, a pedido da minha Letícia, então com 13 anos, fomos passar um fim de semana lá, acampado em barraca. Eu, ela e o sobrinho Daniel, filho da minha cunhada. Lá chegando topamos com uma cena inédita. Justo os dois Km de reta, bem defronte da “Sucuri” (este o nome que meu sogro deu à “Berinha do RiDoce”) estavam em plena reforma. Era “uma cena dantesca”: o céu estava encoberto de pó de brita e minério de ferro; uma barulheira infernal, dezenas de máquinas de todas as formas e tamanho trabalhando ao mesmo tempo; caminhões e carros; e uma centena de homens, uniformizados, de luvas e capacete; com máscaras que cobriam todo a cara. Aquilo mais parecia uma invasão bélica de extra-terrestres. – Cheguei a cogitar com a Letícia e Daniel de voltarmos para casa, porque seria impossível dormir e até respirar naquela imediação. Mas, os argumentos de dois adolescentes de 13 anos, diante de uma visão dessas, são imbatíveis. E, quando acabamos de montar a barraca, a garganta já coçava, os espirros se multiplicavam, a barraca já tinha outra cor e nós já começávamos a ficar irreconhecíveis. Tinhamos que gritar para nos comunicar, o chão tremia sob nossos pés. A noite chegou e imaginei que tudo terminaria. Ilusão! A obra era contínua, não houve intervalo nem para troca de turma. Assim, passei toda a noite de sexta, sob aquela tortura, acordado. Já os dois companheiros, ali do lado, dormiam como se estivessem na cama e no quarto deles. Saí da barrraca de manhã e não vi a luz do sol, tanta era a poeira. A minha decisão era de ir embora sem nem abaixar a barraca, outro dia voltaria para buscá-la. Mas, novamente fui vencido pelos implacáveis argumentos daqueles dois corajosos “Dom Quixotes”, que enxergavam naquele caos um portal, além do qual se revelaria a maior das aventuras. Que não passou de ficar vistoriando, de longe, aquele “formigueiro”. Quando o sábado estava anoitecendo, deduzi que, por ser sábado, a função pararia às 18h. Quando era 18:30 eu não suportava mais e fui lá pedir uma trégua, conversando com o encarregado ele informou: “pode ficar sossegado”, às 21:00 isto aqui vai virar silêncio mortal e só retornamos na 2ª às 0-7:00. Bem, prá quem achava que teria outra noite de tortura… – As 21:00 custaram mas chegaram. A poeira só baixou no domingo de manhã, choveu um pouco à noite, aquela barraca nunca mais teve a cor original. Os dois Dom Quixotes griparam e aceitaram pegar o almoço de domingo em casa. O “Sancho Pança” passou um mês sofrendo uma rinite e ingerindo litros de água para desobstruir as vias respiratórias. – Ali, naquele fiapinho de terra na Berinha do RiDoce, saboreamos em família, sempre agregada de amigos, incontáveis “Canjiquinhas com Costelinhas” (sua “tara”, desculpe-me se era segredo), “Tutu à Mineira”, “Frango ao Molho Pardo”, “Frango com Quiabo e Angu de Muin d’água”, “Traíra Frita com Arroz e Cebola Cozida”, “Nhoque” (este sempre feito pela vó Aurora, mãe do meu sogro), “Muqueca de Pacumâ”. E doces: de Manga (o Catitu faz um, com mangas do quintal da casa dele, que vc não dá vontade de parar de saborear nunca!), de Mamão Verde, de Goiaba Cascão, de Figo, de Abacaxi, de Carambola e o fascinante Doce de Leite, todos eles feitos ali mesmo, no fogão a lenha. – Se eu fazia alguma coisa além de comer? Claro, fazia! Minha especialidade era o Churrasco e o Milho Verde Assado. A churraqueira é feinha, de roda de carro, fica na “puxadinha” bem na berinha do rião doce, nunca que a gente se cansa de olhar aquela belezura (…Ó meu Rio Doce, doce como os seios, da morena em flor…?Zé Geraldo, compositor valadarense). De vez em quando o barco sai ou chega, da pesca ou do passeio. Eu só gosto dos passeios, nunca aprendi a pescar, não tenho paciência com aquele ritual, nem de ficar horas preso dentro de um barco. Enquanto eles pescam eu faço “alterocopismo” e asso a carne. – Asso também as bananas nanicas, pintadas, até ficarem pretas e racharem. Tiro a polpa, ponho no prato, cubro com creme de leite, leite condensado e canela. Todo mundo pede mais e lambe os beiços. Mas, o sucesso mesmo é o milho verde assado no espeto, coberto de manteiga e sal, todo mundo pede “tris”. Onde a Manada vai eu tasco a minha especialidade, faço concorrência com o Catitu e, nessa ele perde. – Já ia me esquecendo do “Mexidinho”, neste a Ró (minha nêga) é quem manda. É melhor do que o do “Jorginho” (restaurante da Terrinha, já lembrado por alguns Dinos aqui). Tem sempre alguèm pedindo: “ô Ró faz um mexidinho prá nós!”, muitos já vieram aqui em casa para apreciar, a pedido, esta simples comidinha caseira, que é associado com pobreza, mas, eu digo, se os ricos não o comem não sabem o que estão perdendo. Agora, tem gente que pensa que preparar “mexidinho” é só juntar todas as sobras do almoço e jogar na panela e mexer. Não, não é isso, nem nada! (eu é que faço assim, a Ró nem aceita, e reconheço que não há nenhuma semelhança com o dela). A verdade é que aquela simplicidade tem ciência e segredo, tem culinária, se tem! A Ró diz: “Cê tem que saber escolher e preparar os ingredientes, tem coisa que não pode entrar, senão estraga, não combina. Tem que saber também a vez de cada ingrediente e a quantidade de cada um e até o modo e o tanto de mexer. Engana-se também quem pensa que o mexidinho é feito só de restos. Quando alguém diz que quer vir comer um mexidinho, faço tudo na hora, só o feijão e o arroz é que ficam prontos antes para adiantar. Mas a cebola, os ovos, o bacon e os cheiros verdes nem têm como serem restos né?Alguns podem sim ser aproveitados.”. Pois intão, na Berinha do RiDoce também teve muito mexidinho, de fogão e de cama, êta trem bão! Amor na rede, ouvindo o marulhar da água e o pio da coruja, em noite de céu estrelado ou de luar de lua cheia… só quem já fez, sabe! – Ah! Meu Rio Doce, Berinha do RiDoce nosso!…
Bção. Jáson.
Jáson Lopes de Carvalho, 04/05/2009. Ipatinga(Pouso de ÁguaLimpa)-MG

Publicado por

Diego Lopes

Graduado em admnistração pela UFV, atua na como coordenador de projetos web há mais de dez anos. Já trabalhou em 3 empresas no Vale do Silício e gerenciou mais de 1 milhão no Google Adwords e 100 mil dólares no Facebook.

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